terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A demência nossa de cada dia

"O amor elimina o medo; mas reciprocamente o medo elimina o amor. E não apenas o amor. O medo elimina a inteligência, elimina a bondade, elimina todo pensamento de beleza e verdade. Só persiste o desespero mudo ou forçadamente jovial de quem pressente a obscena Presença no canto do quarto e sabe que a porta está trancada, que não há janelas. E então a coisa o acomete. Ele sente uma mão na sua manga, respira um bafo fétido, quando o ajudante do carrasco se inclina quase amorosamente para ele. “É a sua vez, irmão. Por aqui, tenha a bondade.” E num instante o seu terror silencioso se transforma em frenesi tão violento quanto inútil. Não é mais um homem entre os seus semelhantes, não mais um ser racional falando articuladamente a outros seres racionais; somente um animal ferido, ululando e se debatendo na armadilha. Pois, no fim, o medo elimina no homem a própria humanidade. E o medo, meus amigos, o medo é a própria base e fundamento da vida moderna. Medo da tão apregoada tecnologia que, enquanto eleva o nosso padrão de vida, aumenta a probabilidade de nossa morte violenta. Medo da ciência que tira com uma das mãos ainda mais do que tão prodigamente distribui com a outra. Medo das instituições manifestamente fatais pelas quais, em nossa lealdade suicida, estamos prontos a matar ou morrer. Medo dos Grandes Homens que elevamos, por aclamação popular, a um poder que eles usam, inevitavelmente, para nos massacrar e escravizar. Medo da guerra que nós não queremos mas tudo fazemos apara desencadear."
Aldous Huxley_ O macaco e a essencia





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